sexta-feira, 12 de junho de 2009

Sonhos

Um dia desses eu tive quatro sonhos, e me lembrei de todos, creio que não seja muito comum se lembrar de tantos sonhos numa mesma noite.
Sonhei que tentava tocar uma flauta de madeira, mas não conseguia... tinha infinitamente mais buracos do que dedos.
Que eu tinha um mandado de prisão contra mim, mas que, quando tentei me entregar na delegacia, tomei um chá de cadeira - esperei a tarde toda para falar com a delegada e ela não apareceu.
Que eu viajava de ônibus e a menina no banco da frente, uma lolita, linda, linda, me mostrava a tatuagem em suas costas, para eu adivinhar o que era; primeiro pensei que fosse uma máscara, mas depois vi que era uma borboleta, feita de fragmentos coloridos como um mosaico, a tatuagem mais bela que já vi, brilhava muito, então fiz menção de tocar as costas dela e, como não se opusesse, toquei-a com ternura, mas infelizmente o sonho acabou nessa hora.
Finalmente, eu andava por muitos caminhos em uma cidade desconhecida, carregando uma panela média pelo cabo, a qual continha um rato morto. Eu olhava o rato e não tinha medo dele, então pensava: o próximo passo é não ter medo de ratos vivos.
Foi tudo isso que sonhei, numa única noite, e me lembrei de tudo, detalhe por detalhe.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Era uma vez... uma princesa...

Era uma vez uma princesa, dentre muitas princesas de um antiga civilização já extinta.
Conselheira e amiga do Rei. (Deixe-me falar do Rei.) Um homem forte, justo e valente que - há mais de cinco mil anos - governou aquele local, o lugar onde ele nascera, num dia de temporal, a céu aberto. Nem as lágrimas da mãe foram testemunha, que a chuva as lavava assim que elas surgiam.
Ela, a mãe, adoeceu desde este dia. E quando em uma viagem novamente foram surpreendidos por um outro temporal, logo que chegaram a casa, ela o coroou; entregou-lhe e pediu que guardasse uma chave. Ele pôs a chave em um bolso secreto do manto que a mãe acabara de lhe vestir. Ela disse mais poucas palavras, abençoou o menino e morreu.
O nome do Rei era Saulo e isso aconteceu quando ele tinha 5 anos.
Muito tempo se passou. A princesa (lembra-se dela?) chamava-se Hara. Princesa entre centenas e centenas de princesas que habitavam o reino, a terra onde nasceu.
De todas era a menos formosa. Não era feia! Desde criança sua cor oscilante, seus cabelos rebeldes e a fragilidade de seu corpo mirrado a deixavam à parte das demais, que a desprezavam, não por maldade, mas por distração. Seus jeitos modestos não se lhe deixavam notar. Cresceu e nada se modificou, Hara
No entanto pela prática de meditação e jejuns, ela se tornou a mais sábia. Seus conhecimentos sobre a natureza, o homem, a vida e a morte, terra e o céu pareciam não ter fim. Quando contava histórias, o som do rio, das plantas, do vento e dos animais faziam-lhe a música de fundo, e seus conselhos eram como bálsamos que apaziguam toda angústia, dissipam qualquer dúvida, faziam sumir o medo e a ansiedade. Por isso Hara era conselheira do Rei. Nenhuma decisão era tomada sem que se ouvisse antes a sua palavra.
O Rei a amava imensamente, mais do que todas as centenas de princesas, filhas de suas mais de duzentas esposas. Hara já lhe explicara que sua missão era povoar o reino, ter um grande descendência que começasse logo a gerar sua própria descendência. Era preciso que sua linhagem fosse a maior possível, para que se multiplicassem rapidamente e afastassem definitivamente o perigo de extinção que a raça humana conheceu naquele tempo. Por isso também ele sabia, segundo ouvira da princesa, que não viveria menos do que cento e vinte anos.
Um dia o Rei, visitando um dos cômodos da quarta torre do castelo, onde guardava tesouros e objetos antigos, viu um pequeno baú fechado. Havia muitos baús grandes e o Rei sabia que neles havia riquezas, mas ficou curioso e abriu o pequeno. Dentro dele encontrou a sua primeira roupa de Rei, a que sua mãe lhe fizera e o vestira, quando tinha 5 anos de idade. Ele sem lembrou da mãe por um instante, e, examinando o pequeno manto meteu sem pensar a mão num bolso interno.
O Rei levou um susto! Uma chave... a chave que ele recebera, naquele mesmo dia... podia ouvir ainda o barulho do vendaval... ver a chuva e as pedras que assolavam a noite... o semblante da mãe, com amor, antes de partir...
Nos dias seguintes, convocou vários de seus servos aos quais pediu que testassem aquela chave em todas as portas existentes no castelo. A resposta veio: a chave não servia em nenhuma porta do castelo. Então o Rei solicitou que fosse testada em todas as portas do reino. Esse trabalho demorou mais de um ano, mas foi feito minuciosamente, e a resposta veio: a chave não servia em nenhuma fechadura de todo aquele reino.

O Rei ficou angustiado e triste, e só então lembrou-se de consultar a princesa.
- Hara. É bom que tenha ouvido de tão longe meu clamor e já esteja aqui pra me atender. Preciso saber qual a porta que esta chave pode abrir.
- Meu querido Rei, como és bondoso por permitir que, por meio de mim, Deus revele a ti as respostas que mereces. Com alegria eu faria esse trabalho ainda que me custasse a vida. O que são alguns dias de viagem, senão dádiva e alegria, para que eu vá ouvir a verdade da boca do Poder? Posso te dar a resposta, mas antes preciso ir até a floresta, mergulhar meus pés em um córrego que apenas eu sei onde fica, e lá eu terei o conhecimento. E então tu também terás o conhecimento. Mas demorará sete dias.
- Um ano esperei por nenhuma resposta! O que são sete dias pela verdade? Os soldados a acompanham?
- Eu devo estar sozinha.
O Rei a abençoou, e a princesa partiu. E no primeiro dia não retornou. No segundo, o Rei já estava aflito, e na manhã seguinte determinou que todos os soldados do reino a procurassem na floresta.
Antes de entardecer, a notícia. Quando no primeiro dia a princesa voltava do córrego, com os tornozelos ainda molhados, um galho seco caiu de uma árvora sobre ela. A princesa não se machucou, mas o galho ficou sobre ela que por sua pouca força não conseguia sair. Ali ela ficou presa até o terceiro dia. Quando na terceira hora da tarde um soldado chegou até ela, Hara só teve forças para contar o que acontecera, e morrer.
Não tenho palavras que dêem medida da tristeza que se abateu sobre o Rei. Mesmo assim ele era um Rei e era preciso sepultá-la, escolher um novo conselheiro e continuar a governar o seu reino e gerar uma nova linhagem de homens. Hara foi enterrada num local de honra, num dos mais lindos jardins que ficava em um pátio interno à torre onde ficava o aposento do Rei.
Sentindo fraqueza o Rei escolheu para seu conselheiro o líder de seu exército, que também era valente e bom. Era o único homem mais forte do que o Rei, em todo o reino. Porém não era tão sábio quanto Hara.

No local em que a princesa fora sepultada, nasceu no mesmo dia um arbusto de lindas folhas muito verdes. O Rei imaginou que aquela planta germinara a partir do calor e da luz de Hara, e que assim pudesse conter algo de seu espírito e de sua sabedoria.
Da folha do arbusto o Rei fez um chá, e deu para que o seu conselheiro tomasse. Ele bebeu, teve a visão de toda a luz que iluminava a mente da princesa Hara, mas não suportou tamanha claridade, e morreu.
Acometeu ao Rei um presságio, e ele não estava tão triste quando enterrou o conselheiro ao lado de Hara. Ali nasceu um cipó.
Com reverência ele colheu novamente as folhas mais, desta vez, o cipó, e preparou durante um dia inteiro um chá espesso que cheirava à floresta e seus mistérios.

Então depois de repousar, na manhã do sétimo dia após a partida de Hara para a floresta, o Rei segurou com as duas mãos uma garrafa, que ergueu ao céu e consagrou, pedindo a Deus que o protegesse e que ele, ao beber aquele chá, vislumbrasse o equilíbrio entre a luz da folha verde e a força do cipó.
Ele destapou a garrafa e dela saiu uma jovem. Não era Hara.
Era uma menina que dançava e que conforme dançava envelhecia, sem perder a agilidade e a leveza de seus movimentos, que quase não faziam barulho, senão um suave sibilar de um vento fresco e agradável. Quando por um instante se tornou velha, o Rei sentiu sua amizade, sabedoria e proteção, a primeira coisa que lhe aconteceu foi perder para sempre toda vergonha e medo. Mas logo a velha já era menina de novo, numa dança circular, um ciclo feito de ciclos, cujo fim está tão longe quanto o fim de um arco-íris.
Quando se fez adolescente de novo, a menina o tomou pela mão e passou a conduzir, com passos tão leves e ligeiros quanto sua dança, eles pareciam deslizar viajando até muito longe dali. Ela o levou até o mar. Da beira das ondas ele observou a imensidão, e notou que pela primeira vez não teve medo.
Então mergulharam e ele descobriu um mundo de cores e riquezas, um universo à parte, o fundo do mar. E depois de se fascinar com tanta beleza, ele viu ao longe algo que brilhava muito, muito, nadou até lá e encontrou uma ostra. A jovem olhou para ele e sorriu. O menino Rei sabia o que tinha ali dentro. Agradeceu em silêncio por encontrar ali o tesouro, riu porque ele esteve sempre ao seu alcance, pegou a ostra e no exato instante em que abriu, tudo em volta desapareceu num estrondo como o de um trovão, mas sem o barulho, somente a enegia.
E então ele se viu a andar em um caminho tranquilo, cercado de flores. Sentiu-se num estado em que gostaria de viver todo o resto de seus longos anos. Sereno. Senhor de si. Rei do único reino governável do mundo, que estava em seu peito.
Ouvindo uma música, vinda de lugar nenhum, naquele silêncio, ele continuou a seguir seus passos em frente com alegria. Não via a jovem da garrafa, mas sentia como se ela andasse a seu lado.
Já andara um bom tempo e estava completamente sozinho. A euforia começou a passar e ele a sentir novamente seu corpo, já um pouco cansado de andar naquela paisagem desértica, já sem muita variedade de cor. Foi quando avistou algo muito distante. Continou a andar e logo distinguiu uma porta de madeira. Não havia parede, apenas a porta. Pensou... por quê uma porta se não é preciso passar por ela?
Sentiu na boca o gosto de toda a vida da floresta, e soube a resposta. Pôs a mão em seu bolso e pegou a chave na mão.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Duas horas atrás eu estava dentro de um ônibus, já perto daqui, mas, como quando o carro se acelera bruscamente fazendo desequilibrar um passageiro, assim meu corpo foi lançado repentinamente de volta a minha vida comum, e minha mente não o acompanhou. Eu pensava em outro mundo, na tranquila visão de uma pequena cidade, escondida num vale. Do alto, não se podia olhar para nenhum horizonte sem encontrar árvores, ou pelo menos um pasto verde, no limite entra a terra e o céu. Eu pensava em minha família. Eu pensava em uma planta que nasceu num estreito corredor entre a lateral de minha casa e o muro limítrofe. O chão é de concreto e só se entra ali para limpar, às vezes. Da janela de meu quarto tudo que eu vejo é o muro, o chão, um cão que vem brincar quando me ouve (ou lê meus pensamentos?), e essa planta. Ela nasceu por uma pequena fresta do chão e se esgueirou para cima, ganhando um belo tamanho. Tem duas longas raízes horizontais, da mesma grossura do caule, e o que mais me impressionou, folhas enormes que pareciam ter vida, paz, sabedoria.
Agora o meu corpo está aqui; é cedo mas devo me apresentar ao trabalho às nove, tenho ainda que passar calça e camisa; na verdade tenho que fazer quase tudo por mim e então rapidamente eu me sinto de volta a casa. Como quem pula da cama, eu acordo.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

É dia e eu já posso ver o sol.
Tenho o convite, levo meu presente.
Posso ver o céu azul e algumas nuvens.
Me basta ter a chance.
Então, eu agradeço.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A mim basta estar vivo.
Minha batalha é com o dia.
É noite e eu posso ver a lua, algumas estrelas.
A mim basta estar com elas.
Então, eu agradeço.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Shivamudrá

Mãos em concha para receber

Os poetas, sacerdotes, terapeutas
todos eles ralam para ensinar
o homem a lidar com suas perdas.
Mas temos a mesma, ou mais, dificuldade
em lidar com aquilo que nós recebemos.
Por isso pratiquemos shivamudrá.

Abra em concha suas mãos, uma sobre a outra,
pousadas em seu colo.
Faça silêncio.
Se puder ouvir, ou entoar, um mantra, ótimo.
Você fora da sua mente, olhando...
Saia da mente...
Descubra outros centros de seu corpo,
passeie sua consciência por ele.
Vá pelos braços atá as mãos.
As mãos abertas...
mãos de uma criança esperando pelo seu presente.
Tudo que recebe
são presentes.

Quando eu vejo como dádiva aquilo que recebi da vida
naturalmente cuido desse bem com todo amor.
Pouco importa se é o couro esticado de um pandeiro
as cordas de um violão bem afinado
a louça a lavar
a lâmina de barba
o corpo de uma mulher.
Há uma linha entre o zelo e o apego.
A diferença está em se ter consciência da
precariedade das coisas.
Como são passageiras, acabam tão rápido!
Hoje retinem no espaço
com o som de taças brindando, festa e luz.
Depois de um segundo
caem e rebentam com um ruído seco.
Por isso zelar, e não se apegar.
O zelo existe enquanto a coisa existe
e carece de cuidado e atenção.
O apego faz-nos remoer a ausência de tudo
até do que nunca existiu.

Tudo se acaba
se dissolve
eu
você
violão

Fixe-se naquilo que não pode pegar com suas mãos.

Energizar o chacra amarelo quase sempre
me leva a visualizar
um deserto, na meditação.
As areias...
os desenhos mudam a toda hora...
isso é a verdade da impermanência...
do seco estalar das breves ilusões...

Ooommmmmmmmm
Sou um caboclo
Tenho flecha, tenho escudo
Tenho coragem pra tudo
Tenho força, tenho amor

Sou um caboclo
Feito desta natureza
Tenho saúde e beleza
Tudo que mamãe me dá

Das matas, das matas verdes
Eu recebo este primor
Esta força, esta alegria
Esta paz e este amor

Borboleta voou, voou
E a floresta encantou
O sol levantou, a chuva caiu
O dia se alegrou, a mãe terra se abriu

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Meu amor partiu pra guerra
deixou minha terra
e eu fiquei a sonhar

Chorando por cada estrela
deitado na areia
na beira do mar

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Desejos...

Desejos...
Sonhos que nos libertam?
Paixões que nos aprisionam?
Difícil saber a diferença, e desejos são, de fato, as duas coisas.

*

Um homem vê um automóvel novo. Observa a atração que exerce sobre as mulheres e como, pelos cantos, outros homens se cutucam comentando com inveja ou maldade, ou ambos. Sonha pelo objeto desejado. Só este importa. A sua felicidade está em algo efêmero, que a chuva faz enferrujar e o assaltante toma em um minuto. A esse destino de Sísifo preso irá sofrer.
Já o menino empina papagaio. Um enorme maranhão no céu. Sonha voar naquele azul claro, rodeados de nuvens que não pode pegar. Sabe que nunca voará como o papel. E, por isso mesmo, fecha os olhos e inventa outro jeito de voar. O menino, liberto, sonha e faz-se homem. Sonha apenas por sonhar. Por isso é um menino, a criança universal.

*

Nas histórias, um homem acha uma lâmpada. Esfrega-a, e dela sai um gênio. E o gênio lhe promete atender a três desejos. São muitas histórias, mas o resultado é um só: o cara sempre se dá mal.
A lição poderia ser esta: ele apenas conseguiu os três desejos porque quis limpar a lâmpada, teve capricho, zelo, curiosidade, quis enxergar a sua essência, como seu aspecto real, o que havia por baixo da poeira. Que nada. Por mais que chegasse a ver o real aspecto da lâmpada, ainda assim seria apenas seu aspecto, portanto ilusório, e talvez o homem quisesse ver somente a sua própria imagem refletida no metal.
A lição é: cuidado com os seus desejos. Dependendo de quais forem, talvez você fique bem melhor sem eles realizados.
Perca o menor tempo possível desejando algo. Mas sem grilos. Desejar não ter desejos também aprisiona. Não deseje que sua mente pare de pensar. Medite ao mesmo tempo em que ela faz o seu papel. Esteja de fora. Observe.
Relaxe. Solte um papagaio.

sábado, 19 de julho de 2008

Quando você fala a coisa uma vez e a pessoa não entende, você pensa "ele não entendeu".
Se, depois, fala a segunda vez, e ela mesmo assim não entende, é horar de pensar... "puxa cara, é burro ou o quê?".
Agora, se você diz pela terceira vez a mesmíssima coisa, e a pessoa não entende, e você diz também a uma segunda e uma terceira pessoas, e elas também não entendem, então, amigo, você é quem não está comunicando bem.
Mude o jeito de falar. Pode fazer isso?
Só pode se puder mudar seus pensamentos.

Para aprender a falar, aprenda a ouvir. Para obter respeito, seja sinceramente gentil. Para ganhar amigos, seja o melhor amigo.
Seja dono da palavra, direto e claro, como um raio.
Fale com amor, como uma Ursa a seus filhinhos, autor às suas crias, o Sol aos planetas sob sua proteção.

(Esse é um orador inventado. E eu o ouvinte, merecedor dessa sábia instrução)

terça-feira, 15 de julho de 2008

O amigo

Poucas coisas são melhores do que conhecer-se. Jornada. Caminho. Uma viagem infinita cheia de segredos e surpresas, que torna impossível o tédio nessa vida.
Desde que você decidiu se conhecer, está sempre fazendo algo. Por mais que esteja parado, em espera, algo está acontecendo. Você, consciente de si, está processando o que ocorre, silenciosamente, em seu corpo, ao redor.
O próximo passo é aprender a nada ansiar. Estar satisfeito pela oportunidade de existir, de poder olhar por essas duas janelinhas tudo que acontece lá fora. De descansar e fazer parte do que acontece por dentro.
Estudar-se, conhecer-se... insista nisso, todo dia, caminhando e errando, aprendendo. Não chegará, nesta vida, à verdade perfeita, mas se tornará um profundo conhecedor dos próprios hábitos e costumes. Saberá quais adquiriu em sua curta existência, e quais vêm com você desde tempos imemoriais, desde o ventre de sua mãe, e de antes, todas as mães, muito antes.
Saberá quais são suas virtudes, e o momento certo de contar com cada uma. Isto trará auto-confiança. Saberá quais as maiores fraquezas, e a maneira de evitá-las. Isto trará economia de energia.
É assim, uma virtude traz outra... e a sabedoria é mãe de todas.

*

Filosofar parece complicado... mas é delicioso.

"Conhece-te a ti mesmo"...

Filo é gostar... Sofia, saber...
O filósofo, amigo do saber, amante dos mistérios, das razões, das descobertas, termina por saber as coisas, literalmente... sabe, prova, degusta, digere, rumina, conhece, reconhece. Com o tempo se torna amigo de todas as coisas. Um dia até esta humana amizade é dissolvida, e ele novamente se descobre Um com Tudo.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

A cobertura

Da janela de meu quarto vejo uma floresta de pedra.
Olho para um enorme prédio, ao longe. Tem no alto dele uma árvore e, se minha vista não engana, alguém se movendo.
"Nada mal morar numa cobertura", outro diz. "Para quê?", me pergunto.
Mas, no fundo, entendo. Não basta morar em um belo apartamento, num prédio caro. Ainda haveria muitos no mesmo nível, morando no mesmo prédio, pagando o mesmo condomínio. Na cobertura está o campeão. O que "venceu na vida". O que foi mais longe. Aquele que está acima dos outros. Livre para gritar, "sou Rei entre meu povo". Abaixo apenas de Deus.

Vejo seu vulto, mas não sei quem ele é. Sei que ganha bem, não sei se ele é feliz.

Ele tem sua cara moradia ao ar livre; pode abrir os braços e sentir o vento, gritar quanto quiser, olhar para cima e ver somente a lua, as estrelas. Ele tem sofás confortáveis, móveis bonitos, lareira.
Eu moro no deserto, na praia, na floresta. As estrelas e a lua me acobertam. Moro nas paisagens que o arquiteto mais caro não pode traçar. Me aqueço na lenha rachada a queimar.

Ele triunfou sobre seus semelhantes, faturou muito mais e está acima de seus companheiros que agora o invejam.
Eu triunfei sobre meus próprios demônios. Lutei contra minhas fraquezas e me pus acima delas, que agora sabem seu lugar.

Eu sou Rei de mim mesmo.
Evoé, Lua! Evoé, Sol!

terça-feira, 8 de julho de 2008

A marca

... de todas as coisas humanas é a imperfeição. Aonde quer que você olhe pode ver. Doença, guerra, desequilíbrio ecológico. Andar indeciso, ações vacilantes, mãos que tremem e lábios que proferem mentira e maldição. Os poderosos destroem mais, pois podem mais. Apenas por isso. No lugar deles, eu, você: seria diferente? Nas coisas "pequenas", naquilo que dominamos, podemos ver a nossa marca, o que nos faz ser o tipo de "homem" que somos.
E ainda que seja o melhor homem do mundo, carregará como os outros a marca da imperfeição.

*

Alheia a toda falha humana, existe uma luz que guia os passos errantes rumo à salvação e à verdade. Um caminho já está traçado. E quem o seguir será o herói de sua jornada.
Apenas não tente seguir essa estrada com os olhos. É um caminho espiritual, por isso só pode ser seguido intuitivamente.
"Tudo que sei é que nada sei"...
Como os cegos que por falta da visão desenvolvem outros sentidos, assim será aquele que se esvaziar do que "conhece"... aquele que fechar os seus olhos carnais, não por deficiência física mas pela força livre de sua vontade... esse verá o despertar de uma nova consciência, romperá a morte espiritual que já o aflige, e viverá, deliciosa e somente viverá, o resto de seus dias.
Sei que nada sei; minha jovem mente hesita entre existir e esconder-se, águia medrosa, mas meu coração está firme e nele eu me fio; volto meus passos imperfeitos na direção da luz.
Guio-me pelas cores que ela realça ao caminho... pelo suave perfume de sua perfeição...

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Tomei todo o soro na veia, demorou umas duas horas. Tem uma torneirinha onde regulam a velocidade e o meu estava bem devagar. Pessoas entraram, tomaram o mesmo tanto que eu e saíram enquanto eu continuava lá, e o líquido no tubo parecia não ter diminuído nada.
Aproveitei a oportunidade para praticar observação da linguagem corporal, mas aos meus olhos turvos era tudo muito igual, a repulsa das mulheres contra uma agulha enfiada em seu corpo, os homens tentando dissimular o seu medo.
Cochilei...
Não me sentia melhor, mas também não quis esperar de novo horas pela médica, apesar de sua feminilidade e beleza. Então saí.
Me senti só. Me senti um pequeno menino mimado, carente de cuidados de mãe. Passei o dia no hospital! Ninguém me liga pra saber como eu estou?

Auto-observação, assim como falar com as plantas, faz você rir de si mesmo, ver como é ridículo. E quando você mesmo se diz isso, então não há ofensa, e é o primeiro passo para uma verdadeira mudança.
Saí andando. Da Liberdade fui para a Praça da Sé. Mochila pesada. Parte de "minhas posses" aindava maltratavam minhas costas. Alguma bagagem é necessária, o peso me impede de sair voando sem controle nem rumo. Mas não muita.
Na Praça ficam a estação do metrô Sé, a mais movimentada de São Paulo, e a catedral da Sé. Em qualquer dia a essa hora tem um monte de gente sentada nas escadas da igreja. Fico imaginando quanta gente diferente. Ali podem estar um gênio da física, um terrorista, um cineasta. Muita gente vai e vem. Doutores. Bandidos. Preciso voltar a essa praça mais vezes.
Coisa que sempre há nela: pregadores. Evangélicos, sempre. Até muçulmanos, às vezes. Outros que misturam suas peculiares convicções ao que conhecem de várias tradições, e misturado à sua "loucura" pregam ao vento. (As pessoas não compreendem nem o louco nem o sábio. É difícil distinguir um do outro, por isso).
Outra coisa. Artistas de rua. Uma garrafinha d'água, com a qual traçam em torno de si um círculo para estabelecer o local da platéia. Os outros ítens variam muito de artista para artista, a maioria usa pouco mais do que a fala, para prender a platéia. Uma vez vi um que tinha apenas um saco no chão, com alguma coisa dentro que se movia. Fiquei lá meia hora. Grande parte faz saltos perigosos envolvendo fogo ou facas. O dinheiro que aceitam é sempre trocado por alguma coisa, normalmente uma medalhinha, ou um papel com oração que entregam enquanto benzem aquele que ajudou.
Moram na praça da Sé muitos mendingos. Vários drogados, bêbados e pedintes.

Nesse dia estava decidido a não ver nenhum artista, nenhuma pregação, nada de ficar observando os corpos largados nas escadas. Queria chegar logo à República e tomar um ônibus, tentar ligar para o chaveiro. Um homem me parou, insistou muito em falar comigo, disse que não queria dinheiro. É o que quase todos dizem, mas no fim acabam pedindo.
O nome desse homem é Machado, e ele queria contar sua história. Eu ouvi. Um pouco, apenas. Ainda atribuo importância demais a mim mesmo para ficar ouvindo pedintes bêbados. Que difícil mudar isso. Tenho sonhos recorrentes que claramente querem equilibrar o meu orgulho, sonhei esses dias mesmo que estava no trabalho usando somente camiseta e cueca, eu esticava a camiseta para baixo, mas logo soltava e cobria apenas parcialmente minhas vergonhas. Também sonho muito que meus dentes estão caindo. Se você não achar meios de se sentir ridículo, rir de si mesmo, alguém vai fazer isso por você. Ou seus sonhos. Ou uma multidão. Virgem, a colheita. Melhor fazer por si mesmo.
Machado me contou de sua vida no Paraná, noitadas no Rio de Janeiro, a mulher que o enchia por causa da bebida, que era professor e compositor. Cantou algumas canções desajeitadas, com letras religiosas. Eu gostei. Parecia algo de tradições populares. Depois de alguns minutos ficou claro que ela era de fato um homem culto, castigado pela bebida, a ela entregue. Vi sinceridade nos seus olhos quando ele chorou. Tudo o que queria, me disse, era escrever suas músicas e ver alguém cantá-las. Muito humilde sabia que, de suas 49 canções, "talvez duas ou três se salvem".
Coincidência ele estar dizendo tudo isso a mim, que escrevo, componho, moro num estúdio com músicos? Eu que amo a tradição popular, de cantigas festivas e religiosas?
No fim ele me pediu dinheiro para pinga e eu dei. Alivie a sua dor, homem. Eu não posso fazer isso, eu não mais que uma dose de pinga.
E me propôs que voltasse ali, onde estaria até o dia oito, se eu quisesse ter uma aula de história, ouvir sobre Buda, Allan Kardec, ou ouvir suas próprias histórias, suas canções. Eu não voltei.

Sinto o tesouro que me escapa como areia pelos dedos entreabertos... sinto o seu hálito de álcool e amargura, um dos perfumes que eu levarei comigo, daqui para a eternidade...

terça-feira, 1 de julho de 2008

Esta casinha
é simples

Esta casinha
é de tábua

Mas pode entrar,
pode entrar
e ficar...

Cosme e Damião
quem vai
saudar

segunda-feira, 30 de junho de 2008

A porta fechada

Foi a segunda vez que fiquei trancado para fora de casa. Da primeira, perdera a chave. Dessa vez a porta emperrou. Demorou mais de uma semana até encontrar um bom chaveiro que a abrisse por um preço justo. Um que me atendesse. Chaveiros têm muito trabalho, as pessoas sempre perdem chaves.
Contive todos os impulsos de me lamentar e praguejar contra a porta emperrada, o chaveiro que marcava e não vinha, os momentos de descanso e solidão em meu lar que eu estava "perdendo". Já estou calejado o bastante (basta um pouco) para saber que as dificuldades têm o objetivo de ensinar. Ensinar... aquilo que pedimos aprender, subconscientemente, por meio de nossas ações errantes.
Ficar na rua, carregando de lá para cá minhas coisas pesadas, passar um dia todo no hospital, tudo isso rapidamente me fez ver o quanto ainda sou dependente das coisas que julgo ter. "Minha" casa. "Meu quarto". "Minha comida" na geladeira.
Toda dependência é uma prisão.
Aonde espero chegar preso ao que "tenho"? Vejo-me com os braços largamente em círculo, como tentando abraçar todas as minhas "posses". Tudo o que é meu. Tudo que não quero perder. Por menos que seja eu não quero me arriscar a jogar... fora? Que diabos estou dizendo?? E fazendo??
A recompensa para os corajosos que correm esse risco é ser feliz.

Gosto de ser testado. Sei do poder das palavras e, quando as digo, é como um desafio, eu sei que o que eu disser de coração será provado. Para o meu bem, para que - a começar em mim - todos possam se fiar no que eu disser. Digo sempre que dinheiro e conforto me importam pouco ou nada.
Uma semana errando por essa selva foi um bom teste. Para eu saber se estou mesmo disposto a viver da forma que abro a boca e falo por aí. A resposta é: estou disposto. E em guarda.
Deixei rolar, aproveitei. Parei de me focar no que não "tinha", não vou desperdiçar tempo, vida, remoendo a desilusão de possuir.
Foi bom... fui "forçado" a vários passeios. Conhecer a casa de uma amiga que mora perto, e de outra forma, talvez, eu não teria ido até hoje. Uma fabulosa peça de teatro que eu muitas vezes adiara, e teria perdido, pelo "conforto" de meu lar.
Richard Bach... Ilusões... Volto sempre àquele jogo de se refazer perguntas. "Onde é meu lar?" Resposta: Minha casa? Um bem tão passageiro? Que hoje está sob "meu" poder, e amanhã estará emperrada? Se eu perder a minha casa, se eu perder a chave, ficarei sem lar? "Onde é meu lar"? Jack London construiu uma casa para durar mil anos. Queimou inteira na mesma geração. Virou cinza. É o que acontece com as ilusões e as posses.
Seja eu uma porta sempre aberta.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Foi lá no mar que eu vi
Foi lá no mar que eu vi serenar
Quando a sereia entrou devagar
No meu castelo de areia, oia iá

Meu amor, eu cheguei agora
Eu venho lá do alto mar
Vim pegar conchinhas na praia, sereia
Para pôr no seu congá

Foi lá no mar que eu vi
Foi lá no mar que eu vi serenar
Quando a sereia entrou devagar
No meu castelo de areia, oia iá

Meu amor, eu já vou-me embora
Eu vou pela beira do mar
Vou buscar uma flor de laranja, morena
Pra o seu cabelo enfeitar

Foi lá no mar que eu vi...

domingo, 22 de junho de 2008

A liga

Leitmotiv é, no original alemão, algo como "motivo que liga". Liga elos aparentemente desconexos da mente ou de uma obra narrativa (musical, dramática ou literária) entre si, adquirindo coerência; liga o autor às criações de sua mente, deixando pistas ao longo do conjunto de sua obra. Ainda que jamais escreva ou componha, tudo que o homem faz é linguagem, então uma mensagem será dita e a mensagem é Eu sou.
As pistas querem ser descobertas. Porém qualquer linguagem requer um receptor que compreenda o código e possa decifrá-la. Muitas vezes a peça é encenada para uma sala às moscas; e pior, nem o próprio ator/autor se analisa, se assiste, se aplaude, ou vaia. Ignora as falas de seu corpo, seus traquejos, seus vícios. Ignora os seus sonhos. Ignora seus sentidos.
Na escrita, leitmotiv é a razão por quê se escreve. Quase nunca aparece abertamente, mas se deixa ver nas entrelinhas, nos cantos escuros, em outros nem tanto. Está em todo lugar e cabe procurá-la; é sempre bom olhar os buracos das fechaduras, debaixo dos tapetes, nas copas das árvores, por trás das vozes embargadas...
Para quem escreve o prazer (e a dor) está em espalhar, esconder, infiltrar, sugerir o motivo, enquanto cria. É como um ponto de repouso, aonde pode, depois dos vôos mais altos, ou da tempestade mais caótica, ou ainda do silêncio mais profundo, retornar. Onde firmar os pés e readquirir equilíbrio. Alinhar o olhar com o horizonte e enxergar como um mortal. É preciso encontrar, antes de tudo, esse lugar.
Para se ter um motivo para escrever, é necessário um motivo para viver. Se a resposta à sua questão não interessa a si próprio, dificilmente irá fazer alguém perder tempo lendo.
Leitmotiv é o elemento terra, na narração.
É uma verdade individual, ou uma angústia, uma ânsia por verdade que interesse a todos pela inventividade e sutileza com que foi encontrada. Ou por seu conteúdo humanista, ou por afinidade de objetivos, ou por simples empatia. O que vale é ler, procurar.

Na música, similarmente, leitmotiv é o tema que se repete, como um ponto de descanso. É sempre referida na obra clássica do compositor alemão Wagner, mas também se identifica claramente no Jazz, onde caminhos inimagináveis abertos pela improvisação deságuam sempre em um tema já ouvido, um ambiente familiar onde sentimos proteção, calor e conforto.
O elemento terra. O nascimento. Deitar-se no colo da mãe, e ficar...

A psicanálise, a propósito, é uma arte de leitura, de investigação. Consiste em entender o que se passa no íntimo de alguém enquanto ele pensa estar falando de outras coisas. O psicanalista segue pistas. Muitas são falsas; para superar essa barreira, ele, da mesma forma que se faz nas investigações criminais, busca por grupos de pistas que dêem coerência umas às outras. Em outras palavras, identifica nas repetidas condutas do analisado o seu leitmotiv. Inconsciente, forjado por anos de amadurecimento e acelerado por gatilhos escondidos em sua história.
Escrever, compor, é terapêutico. Não acuse falta de tempo. Você economizará o dobro de tempo deixando de se perguntar depois "por quê fui fazer isso?".
Ou, pelo menos, leia um livro. Pode ser aquele que você vai escrevendo, dia-a-dia, e nem percebe.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Eu vou levantar
Eu vou levantar oia iá
Erguer a poeira do chão
Tomar um caminho
Direção ao luar
Deitar minha capa na estrada,
Cantar, disparada,
Calor, coração
Andar no esplendor da alvorada
Em praias salgadas
Barulhos do mar
Sonhar com a alma esperada,
No rosto das águas,
Seu colo iaiá

domingo, 15 de junho de 2008

A escolha

Salomão podia escolher ser invencível na guerra.
Que seu templo nunca viesse abaixo.
Que seu nome jamais fosse esquecido.
Podia escolher saúde.
Riquezas. Paz. Conforto.
Podia escolher ser imortal.
Podia escolher o que quisesse.

Salomão podia até escolher felicidade.